Festa das Cruzes, Festa da Ascensão

2019-04-29 | Notícias

No Guardão, em plena serra do Caramulo!….

É na quinta-feira de Ascensão que acontece esta festa secular e a mais significativa da Serra do Caramulo, qual “Jóia da Coroa”. Perde-se na nebulosa memória do tempo a origem de tão rica manifestação de fé e gratidão, e da promessa dos antepassados que os descendentes souberam e sabem cumprir, esperamos que até ao fim dos séculos…

Vale a pena transcrever o que a Folha de Tondela publicou em maio de 1969:

«Festa imponente no Guardão em plena serra do Caramulo, na vertente virada à Estrela, à altitude de 600 metros acima do nível do mar, ergue-se a mui antiga matriz do Guardão.

Centro de unidade de uma vasta zona caramulana, que se estende dos Jueus, – povo fundado pelo Rei Povoador – fica por detrás do Caramulinho, voltado ao Buçaco, passa pelas Laceiras, onde se encontra a gruta do Prior do Crato – diz se que viveu ali algum tempo refugiado, Pedrogão, Cadraço, Paredes e sempre, pelo cume da Serra, salta ao Caselho, na vertente Norte, mesmo a espreitar Viseu. É o braço horizontal de gigantesca cruz e que Paredes, agora Caramulo, com Janardo, outrora Vila com Pelourinho, que ainda conserva, algo mutilado, formam o braço vertical. A um quilómetro a sudoeste do Guardão e, nem tanto a nascente a Estância Sanatorial, ergue-se a dominar o monte, a Capela de S. Bartolomeu. Nesse monte, existiu, outrora, um castro com dupla muralha a noroeste, visto ser inacessível a sul. Por toda a parte se encontra, ainda hoje, “tegulae” e “imbrices” e pedras soltas e até alicerces de habitações circulares com 6,7 metros de diâmetro. A garantir tudo isto um imponente epigráfico, guardado no interior da referida Capela, e que data do décimo terceiro Tribuno de César Augusto, onze anos antes de Cristo, segundo os entendidos.

Ora, é neste lugar que se passa o seguinte. Em Quinta-Feira da Ascensão, este ano a 15 de Maio, concentram-se ali as freguesias de Santiago, Santa Eulália, agora Campo de Besteiros, e Castelões, logo de manhã, em sítios diferentes, como que a tomar posição de guerra. À hora marcada (10h.) de pendões a drapejar, cruzes engalanadas com grinaldas e muito ouro e os primeiros frutos da terra, por entre o dialogar cantado das ladainhas, atravessam, em triunfo, todo o monte de S. Bartolomeu, até ao Cruzeiro no extremo sudoeste. Dali, como de varandim majestoso, descortina-se um trecho empolgante do Vale de Besteiros, enfeitado com seus laranjais, salpicados com as lantejoulas douradas dos seus frutos. Os sinos da Igreja de Castelões repicam festivamente e, pela quebrada da serra, desce súplica de uma freguesia inteira que, de joelhos, invoca o Padroeiro de Castelões: “SALVADOR DO MUNDO, OLHAI POR NÓS!” Todos se erguem e desfilam agora, garbosa e religiosamente, por entre o povo das outras freguesias. É que foram os primeiros ao assalto, por isso, os mais valentes. É Santiago de Besteiros. Hoje querem ser os primeiros em número de romeiros, e cruzes, em canto e em compostura. Ei-los que passam…! Já Campo de Besteiros, em incontido brio, e muita fé, ergue seus pendões e cruzes e solta, não gritos de guerra, mas de súplica ao Céu e cheios de ciúme, lá vai percorrer o mesmo caminho, disposto a vencer o certame de oração. Foi aqui, certamente, que Birceu, o Rei Lusitano, acampou e recrutou os 2 mil guerreiros com os quais, muitas vezes, saiu ao caminho das altaneiras Águias Romanas. E tal foi a bravura e mestria no manejo da “besta” que formaram um corpo aguerrido de besteiros, nome que todo o Vale herdou. E Castelões que não podia ficar atrás, e nunca ficou, desfralda suas bandeiras, ergue as suas numerosas cruzes e quais guerreiros de antanho, solta os acordes do “ORA PRÓ NOBIS”. Guardão está atento. A um sinal dado no sino, qual toque de clarim, saem também os pendões e cruzes, festivamente engalanados com o ouro de toda a serra, ladeados por dois serranos armados de arcabuzes, ao encontro da 1.ª procissão, ou seja a de Santiago, não para medir forças, mas para se abraçarem. E abraçam mesmo. Os cruciferários e porta-bandeiras e lanternins, ajoelham nas lajes da calçada romana e levemente, tocam suas cruzes. É o grande momento! Não raro há lágrimas nos olhos dos assistentes. Aquele gesto é o milenário abraço da promessa feita pelos antepassados que, a seguir à vitória, correram à Igreja a agradecer a Deus e, pelo caminho, abraçavam a todos os que encontravam. E para não esquecerem tal feito, prometeram vir todos os anos dar o abraço da unidade, da fraternidade, da alegria, da paz e do amor e agradecer a Deus. Após a chegada da última Freguesia, o nosso Venerando Prelado, que este ano, nos concede a graça de vir presidir e celebrar a Missa Campal e dizer a Palavra do Pastor a esta porção grande do rebanho besteirense e caramulano, realiza-se a grande procissão com a participação de todos os presentes, que encerra este dia grande de toda a região.»                                                                                                                            António da Póvoa

Retirado de Santos, J. Ribeiro (2015), “Monstro Fabuloso Adormecido…”

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